AnaLito I – Laranja Mecânica

“Um homem que não pode escolher deixa de ser um homem.” 

Gostaria de poder dizer que passei muito tempo ponderando qual seria o livro ideal para marcar a estreia desta nova participação ao Filosofia do Cotidiano; porém, estaria mentindo. Tive certeza absoluta sobre qual seria minha primeira indicação literária assim que surgiu o assunto, não só por se tratar de um clássico, mas também por ser um livro relativamente curto que exige extrema concentração e imersão para que seja compreendido em todas suas vertentes e formas. Portanto, meus druguis, acomodem-se no Korova Milk Bar com seus molokos e sejam bem-vindos à obra de Anthony Burgess, Laranja Mecânica.

A experiência com o livro é conturbada. As primeiras páginas oferecem alguns percalços na leitura, uma vez que é necessário consultar o glossário Nadsat quase o tempo todo para compreender o que Alex DeLarge diz. Isso fez com que, num primeiro momento, o livro não atraísse a ponto de fixar. Porém, a partir do segundo capítulo, a ânsia em descobrir a sequência dos fatos e a inconstância de sentimentos que o leitor desenvolve por Alex fazem com que seja impossível deixar o livro de lado. E é justamente a partir deste ponto que começa a provocação filosófica.

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Alex é um adolescente, assim como seus companheiros. Nos primeiros capítulos, sua postura, linguagem e frieza fazem o leitor idealizá-lo como um adulto. Desde o início, ele se mostra extremamente calculista e suas atitudes enojam quem lê. Entre elas constam estupros, agressões, invasões à propriedade, roubos, assaltos e assassinatos. Em casa, a família contenta-se com o dinheiro trazido, do qual Alex jura ser fruto de trabalho, e ao chegar em casa sempre se dirige ao seu quarto, que é equipado com aparelhos de som – que tocam Beethoven, Mozart e outros grandes nomes da música erudita, um dos pontos chave do decorrer da história. A música clássica, representante de coisas belas e maravilhosas, é a trilha sonora das maldades por ele cometidas, e inclusive uma parte do livro é dedicada aos pensamentos de Alex enquanto ouve a parte da nona sinfonia de Beethoven que é intitulada “Ode à Alegria”.

Conforme a trama se desenrola, a superioridade de Alex em relação a seus comparsas passa a ser questionada. Irredutível, ele comprova – ou pelo menos pensa – ser o mais inteligente e esperto de sua gangue. Uma série de acontecimentos desencadeia na traição de Pete, George e Tosko em relação a seu líder, o que leva Alex diretamente para a cadeia e, posteriormente, a uma experiência que procura transformá-lo em um ser humano bondoso e socialmente ajustado. Apesar da aparência perfeita que o método carrega, o ideal presente nele é de que os fins justificam os meios, ideia provocada por Maquiavel em sua obra O Príncipe – qualquer iniciativa é válida quando o objetivo é conquistar algo importante. A princípio Alex sente-se sortudo por conta do tratamento que recebe nesta “clínica”, uma vez que sua alimentação é farta e nada lhe falta fisicamente. Porém, desde a primeira sessão do tratamento, o protagonista percebe que sua experiência será muito mais traumatizante que propriamente cooperativa. Toda sua história e suas ações, além de seus gostos – e aqui entra, novamente, a importância da música na obra – são transformados em traumas e medo.  Ao final, Alex não sente diferença alguma em seu comportamento quando comparado a sua entrada, porém, ao ser colocado nas mesmas condições de violência da qual convivia e protagonizava antes de ir para a prisão, reage de forma assustada e é simplesmente bloqueado de suas próprias ações. Alex é domado, e após isso, exposto como num zoológico como um experimento que deu certo.

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“Estou completamente curado”
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O restante do livro desenvolve-se de modo lento e sofrível. É impossível não sentir empatia por Alex e até mesmo pena, pois apesar de suas atrocidades cometidas, percebe-se que a bondade, como percebida pelas pessoas comuns, não faz parte de sua composição natural; o leitor acaba por sentir saudades do protagonista doentio e criminoso, porém verdadeiro em sua essência. Na realidade, esta parece ser a alma do livro: a proposição de que a verdade de cada pessoa é mais importante que os pilares morais sustentados pela sociedade.

“A virtude vem de nós mesmos. É uma escolha que só a nós pertence. Quando um homem perde a capacidade de escolher, deixa de ser homem.”

Apesar de breve, Laranja Mecânica é o tipo de livro que muda a visão do leitor em diversos aspectos e áreas. É impossível passar ileso pela relação de amor e ódio que a história de Alexander proporciona ao observador; acabamos por preferir visualizá-lo apunhalando a perna de algum transeunte do que contendo-se em si mesmo involuntariamente. Há algo de errado nisso? De certo que não. Passa-se a questionar o certo e o errado, e, apesar do desconforto sentido ao torcer pelo protagonista – algo impossível de se evitar -, é de suma importância que façamos esta análise do que conhecemos por bem e mal e quiçá ponderar nosso posicionamento, uma vez que estes conceitos não são verdades absolutas e variam conforme tempo e espaço.

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“Violência gera violência”

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O final do livro é surpreendentemente triste e esperançoso ao mesmo tempo. A inteligência e lábia de Alex, canalizadas para os próprios interesses dos aplicadores do método Ludovico, acabam tomando o caminho contrário e ele passa de líder para bichinho acuado. De modo geral, o ponto alto realmente é a provocação. Anthony Burguess demonstra de forma sinistra e extremamente real como o sistema e as instituições são falhas no que diz respeito à recuperação das pessoas mal ajustadas, tornando-as, ao invés de pacientes recuperados, vítimas de seus próprios desvios, invertendo suas posições de gênios para escória, quando existem outras alternativas mais humanas e úteis.

E é com esses messels, meus druguis, que me despeço e aguardo vocês para o AnaLito do mês que vem. Que Bog os abençoe e boa leitura!

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Yasmin

Musicista, professora, escritora amadora e leitora profissional. Estudante de tudo que é interessante e curioso.

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