Analfabeto político: para que (m) serve? – introdução ao pensamento político

por Ricardo Luis Reiter
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
BRECHT, Bertolt
         O grande mal, ao meu ver, não é um governo corrupto, nem tampouco a falta de um alinhamento político dos partidos. O problema, assim parece-me, é de outra ordem. De outra instância, poderíamos dizer também. Não falta ao Brasil partidos ou políticos; aliás, temos em excesso até. O que falta é, antes de mais nada, é um compromisso com a política. Porque política não é algo que dependa de partidos políticos. Política diz respeito às leis gerais que regem nosso contrato social. Política é o que nos permite viver em sociedade. Então, é inviável alguém defender a máxima: “eu odeio política”. Tal cidadão, em análise substancial, está dizendo: “eu odeio viver em sociedade”. Em suma, ou ele é um caso máximo de egoísmo, ou ele tem sérios problemas de saúde mental.

         Política, e aqui recorri ao Dicionário de Filosofia, elaborado por Nicola Abbagnano, é, em suma, apresentado sobre quatro aspectos dentro da história da humanidade: 1ª a doutrina do direito e da moral; 2ª a teoria do Estado; 3ª a arte ou a ciência do governo; 4ª o estudo dos comportamentos intersubjetivos. Em resumo, pode-se dizer que o primeiro conceito foi utilizado principalmente por Aristóteles e depois por Hobbes, sendo a política a ciência do justo e do injusto. Já o segundo significado também aparece em Aristóteles, em seu livro Política e tem dois objetivos: descrever a forma de Estado ideal e determinar a forma do melhor Estado possível em relação a determinadas circunstâncias. O terceiro significado aparece mais claro quando Maquiavel escreve, em O Príncipe, as seguintes palavras:
E muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca foram vistos nem conhecidos como existentes. Porque é tanta a diferença entre como se vive e como se deveria viver, que quem deixa o que faz pelo que deveria fazer aprende mais a arruinar-se do que a preservar-se, pois o homem que em tudo queira professar-se bom é forçoso que se arruine em meio a tantos que não são bons. Donde ser necessário ao príncipe que, desejando conservar-se, aprenda a poder ser não bom e a usar disso ou não usar, segundo sua necessidade.
         O terceiro significado, portanto, remete à prática política. Ou ao jogo político, à manutenção do poder político. Em outras palavras, refere-se ao que é necessário para que o governante se mantenha no poder e possa fazer a manutenção de seu governo. Por fim, chegamos ao quarto significado, que surge com Compte e se alinha com o significado de política que a sociologia aborda. Trata-se, a grosso modo, de submeter os fenômenos políticos a leis invariáveis, cujo uso pode permitir influenciar esses mesmos fenômenos.
         Dito isso, podemos continuar nossa discussão. É mister, dentro de uma democracia (aliás, não apenas na democracia, mas sim em todas as formas de governo) que o cidadão conheça política de forma suficiente para poder fazer uma leitura profunda do cenário político no qual está inserido. Um cidadão que não sabe política, é um cidadão útil ao sistema por reproduzir falsas verdades, por garantir a manutenção do status quo e ser apenas massa popular de manobra política.
         Um cidadão que não é alfabetizado politicamente, acaba participando de atos que não são políticos (apesar de serem rotulados como tal), mas sim de atos com interesses políticos. Esse cidadão reproduzirá apenas os chavões que encontra na mídia (que jamais é imparcial, pois também ela tem interesses políticos em jogo), indiferente da cor de sua camiseta. Ele ainda acabará por incitar a violência, seja física ou verbal e não se dará conta do quão manipulado está sendo.
         Mas o mais hediondo dos atos que um analfabeto político pode cometer é justamente calar aqueles que conseguem ver as entrelinhas do cenário político. Porque um analfabeto político tem o “poder” de “castrar” qualquer cidadão que esteja desejando desenvolver uma discussão política fundamentada e racional. O analfabeto político é, em suma, um tolo. Um imbecil que, através de expressões como: “isso é sua opinião”, “seu comunista de merda”, “seu capitalista explorador”, “o nazismo foi o principal movimento de esquerda”, para não citar outras expressões ainda mais violentas, acaba por tirar do cenário da discussão política os poucos interessados em discutir o problema à fundo. O analfabeto político é extremamente necessário para a manutenção do status quo e para os interesses de grupos (partidos) políticos (tanto para aqueles que desejam manter o poder, quanto para aqueles que desejam tomar o mesmo).
         Por fim, fica implícito aqui o desinteresse em se permitir espaços de discussão política em salas de aula. Porque o sistema educacional do país está submetido aos interesses políticos, que nesse caso são os mesmos para todos os grupos: criar o maior número de analfabetos políticos possível. Mas sobre como a política (política aqui como conjunto de leis que difere o justo do injusto – em tese – priorizando a justiça) se curva aos interesses políticos (partidários e/ou de bancadas) precisaremos de outro espaço para tratar. Portanto, leiam esse curto texto apenas como uma introdução básica para abandonar a posição de analfabetos políticos. Será preciso estar desperto para poder acompanhar os aprofundamentos políticos que irei propor nos demais artigos.
         Em tempo, lembro que o analfabeto político, se for jogar xadrez (fazendo uma analogia com o cenário político) irá focar-se em derrubar o rei, porque é isso que se manda fazer. O analfabeto político não prestará atenção ao que acontece ao redor, ao que acontece em todo o tabuleiro. Ele foca apenas em caçar o rei, e assim, acaba sempre sendo derrotado, porque é apenas alguém que reproduz o que se pede que seja feito, sem poder entender o cenário e alcançar seu objetivo através da compreensão da realidade. 

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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