Afinal, quem são os outros?

Faço uma ressalva inicialmente. O texto, para alguns, pode apresentar caráter simplório e, demasiado subjetivo. Lembro que não faço ciência e sim algumas reflexões que vejo pertinente no cotidiano, para pessoas interessadas em questionar as coisas simples da vida, pois como dissera Nietzsche, “a pessoa chega à maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara uma brincadeira”.

“O inferno são os outros” (Jean-Paul Sartre). Inicio esse breve texto com tal frase não para reafirmar o narcísico, mas sim, para levar a uma reflexão um pouco mais interessante – acredito eu.

Desde pequenos somos levados a sermos espertos e lançarmos as responsabilidades aos outros e/ou aos mais diversos fenômenos. “Não vou começar agora, pois tenho tempo depois”, “vai chover, logo fico dormindo…” e por aí vai. Não é assim mesmo? – ao menos na nossa “pobre” cultura; ou talvez seja algo da natureza humana.

A autodisciplina é algo um tanto difícil aos seres pensantes, o que nos leva a imaginar que, se possível, faríamos somente aquilo que nos dá prazer, satisfação. Se não há alguém para “ficar pegando no pé”, simplesmente procrastinamos. Esse alguém pode referir um amigo, os pais, o tempo determinado ou a consciência da finitude da vida.

No entanto, quando deparamo-nos com alguém que apresenta características que reconhecemos – mesmo que inconscientemente – que gostaríamos de ter (ser), logo apontamos defeitos na mesma. É a famosa nos tempos modernos, inveja, a qual a maioria sente-se invejado, mas não assume seu caráter possessivo em si – isso necessariamente não significa algo negativo, a intensidade desse sentimento dirá por si.

Na complexa teoria de Hegel – o tal filósofo conhecido por sua difícil compreensão – o mesmo nos diz algo sobre a consciência-de-si e a consciência-de-si do outro por meio da dialética da alteridade, capaz de culminar no autoconhecimento; ou seja, o outro é imprescindível para nós – mesmo que você seja aquele que assevera a todo tempo: “não estou nem aí para o que os outros pensam de mim”. Esquece-se que o teu conhecimento – ao menos teórico – não provém de ti mesmo, senão não haveria a necessidade de fomentar referências para tudo que se (re)produz.

Há algo que digo sempre, a qualquer pessoa que converse comigo, em geral sobre política e/ou movimentos sociais; usarei esse mesmo pensamento nessa análise – se é que podemos denominá-la assim.

As pessoas são diferentes! (Nenhuma novidade), ora, por que de tanta dificuldade em pensar de forma não estereotipada?

Em qualquer lugar que fores; em qualquer grupo que fizeres parte; em qualquer bandeira que fores levantar… As pessoas continuam sendo diferentes! Claro, há algo em comum entre elas, mas mesmo assim, não se pode colocar todos em um mesmo saco. O que quero dizer é que, por exemplo, num mesmo movimento social, em prol de “um mesmo objetivo”, (1) há pessoas que sabem o que pensam/fazem; (2) há pessoas que acham que sabem; (3) há pessoas que somente estão ali para fazer número; (4) há pessoas que estão para avacalhar; (5) há pessoas por trás de tudo, por vezes encabeçando em prol de interesses particulares, e por aí vai…

Em todos os lugares, acredite, mesmo que muito de cada personalidade crie uma identidade social, as pessoas continuam sendo indivíduos. É difícil separar uma coisa da outra, porque ao meu ver, cada um “vê” o outro instintivamente, e não racionalmente, como essa tal dialética da alteridade. Por isso o diálogo é tão difícil, as pessoas têm paixões, e mesmo que não saibam, são movidas por elas.

É preciso saber distinguir! As pessoas pensam diferente, vivem diferente, sentem em proporções diferentes, ou seja, todos temos vários “vieses”, logo é normal que sejamos diferentes e ajamos de forma distinta em situações diferentes. Tolerância e uma mínima vontade para tentar entender o outro com clareza, da forma mais fidedigna possível.

Os outros, são como nós. Obviamente, somos todos diferentes, características, genética, historicidade, contudo todos temos problemas, pertencemos a uma mesma espécie e provimos do mesmo lugar – seja lá o que for que você acredite, a verdade é que não há uma verdade, ou simplesmente ela seja uma amiga desconhecida que nos instiga e dá sentido à vida.

Portanto, é difícil partirmos de uma perspectiva que vá contra nós mesmos ou que seja alheia às nossas paixões? É claro que é, mas é o primeiro passo para uma realidade a qual todos – ou a maioria – desejam, o problema é que espera-se sempre que o outro seja solidário e “dê o braço a torcer”. Estamos nos fazendo distantes do progresso da inteligência humana, pois continuamos na lógica da necessidade de um ganhador e um perdedor para toda e qualquer situação, seja no campo das ideias ou da vida cotidiana. Pesquise sobre a filosofia africana, Ubuntu.

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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes à Ciência Jurídica, Filosofia, Ciências Sociais, Economia, Relações Internacionais, Geopolítica, História e Psicologia/Neurociência.

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