A vida

        Bateu na minha porta… Felicidade assim se chamava. Não era acompanhada de uma bela gravata, nem de uma cegonha com pequenas chupetas. Nesse plano de vida, eu não tinha um requisito de herdeiros para deixar, como seguimento do meu sangue nesta vida.

      Ao abrir a porta não deixei a felicidade repousar nos meus aposentos. Não ofereci goles de café, nem uma bolacha de acompanhamento. Peguei na sua mão, saímos rumo ao mundo. Nem hesitei em fechar a porta, talvez eu voltasse. Ou… nunca, mais.
 
      Não desejo cair na tentação do prazo dos filhos no ventre, da barriga no tanque, pondo roupas e fraudas a lavar… Não sei me alinhar nesse molde feminino. Talvez eu queira conceder banhos ao mundo, mergulhá-lo na minha banheira e limpa-lo á minha maneira.   
 
      Quem sabe eu não deseje a felicidade que os outros procurem no fim da vida, a felicidade de família. Quem sabe eu seja minha própria família, quem sabe eu seja só eu e o mundo. Quero correr das relações entre pessoas e talvez se agarrar as relações de mundo. Terra nos pés, mundo nas mãos. Beber desta fonte que, não se sabe se é salobra ou límpida.
 
      É loucura, essa aventura dos sonhos humanos, os meus sonhos de menina. A vida tem prazo, aqui se erra, se nega, se pertence, e do mesmo você não é dono. Aqui se caminha, se desacelera, se desgasta se renova á nossa maneira.  O que fazer desta vida negociada no tempo limite? O que fazer desta vida um bom momento de vivê-la? O que fazer de você, um ser humano feliz?
 
      Na minha felicidade, 60, 80, 90… é muito pouco tempo, pra mim. É piscar os olhos e simplesmente ter passado das mamadeiras ás fraldas geriátricas.
 
     O que trocar o que repor? O que engolir o que cuspir? O que agarrar e se desapegar? O que deixar como herdeiro seu nessa vida?
 
      A minha carne, assim como a sua, um dia será possuído pela terra, os vermes a consumirão e vocês sabem disso. São tantas desejáveis a serem projetadas, mas o tempo, esse nos obriga a sermos ligeiros com nossos sonhos.
 
     Quando sai por aquela porta, se passaram anos e vivi o que tinha de viver, sem deixar herdeiros que conservasse minha memória. Fui auto-suficiente mesmo não me encaixando no quadro perfeito de mulher. Eu fui feliz me enquadrando no mundo e não nas pessoas.
 
      Talvez por pessoas decepcionarem e sem elas não sofremos com tal projeção de felicidade. Quanto tempo para achar a própria felicidade? Será a felicidade um jantar a dois? Ou simplesmente um cardápio ao modo eu por si só?
 
       O caminho para a felicidade sua, somente você sabe, ou nunca saberá, vai depender do tempo que você vai alcançá-la. O importante é você sentir-se feliz nesse prazo de vida seja de seus 30 e poucos, ou 80 anos.
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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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