A vida não acontece em linha reta

Quando Fernando Pessoa escreveu o verso “navegar é preciso, viver não é preciso”, ele lançou um olhar poético sobre a falta de linearidade do estar vivo.

Venho falando aqui da trajetória de cada um como uma jornada e como uma jornada é composta de erros, de acertos, de acontecimentos que não se enquadram nem como erros nem como acertos, mas que vão somando para constituir o que somos no momento presente.

Entendo esse verso um pouco como se a Filosofia Clínica fosse sonhada na poesia antes de ter sido sistematizada como prática terapêutica. Como entender o outro no contexto das suas imprecisões, da sua trajetória não linear.

É uma ideia ingênua pensar que seguimos um roteiro pré-definido na vida, roteiro esse que traça comportamentos ditos “normais”, ou como citou Pessoa, “precisos”, e tudo o que não se enquadra nesta rota é carimbado como desviante.

Apesar de ingênua, essa é a ideia socialmente aceita, que determina atitudes singulares como indício de doença. O melhor exemplo disto são as reuniões sociais ou familiares, onde se elege determinado comportamento como modelo, e se você não se encaixa neste modelo, seja de relacionamento, seja profissional, todos procuram dar conselhos para mudar sua situação de vida, independente do que você queira. Essa pressão social é percebida por cada pessoa de maneira diferente e de acordo com o grupo social em que se está inserido.

A filosofia nos leva a questionar o estabelecido, a resposta pronta, o comportamento normatizado, a filosofia nos leva a fazer novas perguntas sobre as respostas já cristalizadas.

Esta atitude filosófica, faz com que o partilhante (quem faz a terapia em Filosofia Clínica) que vem para a clínica, tenha a possibilidade de olhar para sua história de vida, sob nova perspectiva, como quem faz novos caminhos em uma cidade já conhecida. É justamente isso que faz da Filosofia Clínica um novo paradigma como abordagem terapêutica, pois a escuta do partilhante acontece dentro do seu mundo, na construção de uma terapia individual, onde não existe tipologias nem rótulos pré definidos, muito menos o conceito de normal x patológico.

Na clínica filosófica, existe a possibilidade da pessoa se expressar livremente e ter no Filósofo Clinico uma escuta cuidadosa da sua singularidade, que surge através da história de vida partilhada. Esse re-conhecimento de si mesmo, que o acolhimento proporciona, faz com que o partilhante, este que está partilhando sua história, possa se pensar fora dos rótulos sociais e reorganizar o seu estar no mundo.

No encontro entre o Filósofo Clínico e o partilhante, se estabelece um espaço de expressão da sua perspectiva única, em que vai se desenhando uma abordagem específica, que vai entender o outro dentro do seu universo, da sua linguagem, entendendo sua singularidade como parte da sua construção do estar no mundo.

O que vai guiar o filósofo para chegar na singularidade deste partilhante, através da sua história de vida, a gente chama em Filosofia Clínica de dados categoriais, ou ainda, o entendimento de como essa pessoa se posiciona no mundo.

Para entender o jogo de palavras que Fernando Pessoa usou, por exemplo, é necessário situar sua poesia no final dos anos de 1890 em Portugal, entender o pensamento racionalista daquela época, que fazia das navegações uma ciência exata. Assim como perceber que ele se refere não somente à imprecisão da trajetória humana, mas também às inúmeras vidas perdidas no mar. Navegar é preciso, viver não é preciso, para tantos que perderam a vida pelas navegações.

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Luz Maria Guimarães

Filósofa Clínica, terapeuta e empresária. Mas a vida segue linhas curvas, como o pensamento, fiz graduação e mestrado em História, e tenho um escritório de Design Gráfico. Gosto de poesia, arte, filosofia e tudo o mais, e venho trazer algumas linhas sobre como o mundo me parece. Saiba mais no site www.luzmariaguimaraes.com, ou mande um email para contato@luzmariaguimaraes.com

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