O propósito da arte, da técnica e da fotografia como registro imediato de uma “sensibilidade estética”

Quando falamos em arte, sobretudo quando a tomamos como objeto de investigação filosófica e, juntamente, voltamos nossos olhos à história da filosofia, encontramos uma indissociável relação entre ela e a técnica com vistas à produção do objeto artístico. Os primeiros filósofos – diferentemente de Deleuze, que pensava a arte como uma forma de conhecimento e organização do devir caótico no mundo através das percepções e sensações – fizeram uma separação rígida entre o ato de produzir um objeto pelo emprego de uma técnica, ainda que de modo racional, e o ato de produzir conhecimento propriamente dito. Este último chamavam episteme, enquanto aquele, technê.

A ideia da arte como aplicação de uma técnica através de ferramentas de criação não fora um empecilho para o seu desenvolvimento. No momento em que esta característica distintiva da arte devidamente abraçada pelos artísticos consegue, não apenas se desenvolver, mas principalmente atestar o seu caráter epistêmico enquanto forma de conhecimento ao lado da filosofia e da ciência – ou ao menos essa é a ideia de Deleuze. Ressalto ainda que a técnica se torna o objeto de qualificação da obra, seja na diferenciação entre um movimento artístico ou vanguarda e outros, seja na “assinatura” da técnica empregada por cada artista. Apesar disso, o desenvolvimento de novas técnicas para a produção artística acarreta problemas, sobretudo quanto à questão da autenticidade da obra. Isto se torna evidente na medida em que a “técnica” se torna “tecnologia”.

O auge contemporâneo do problema entre arte e tecnologia surge a partir da utilização artística da fotografia e do desenvolvimento dos meios de produção em massa do conteúdo registrado. As reflexões de Walter Benjamin no domínio da tecnologia da obra de arte nos permitem desenhar melhor este problema. Quando ele analisa a estado da arte sob a ótica dos meios de produção percebeu uma significativa mudança no modo de percepção sociocultural a respeito da obra de arte. No âmbito da reprodução dos clássicos há uma banalização da obra que gera uma completa dissolução da aura até então mantida através do caráter aristocrático do acesso à arte.

No campo da fotografia a situação parece ser ainda mais complicada. Isto porque parece possível dizer quer ali a obra já nasce ausente de uma aura, abrindo espaço para uma crítica ao próprio caráter artístico da fotografia. De maneira geral o conceito de aura vem atribuir valor artístico à obra a partir de um devir histórico de age, inevitavelmente, sobre a obra; Neste sentido a Monalisa original de Da Vinci carrega, para que possamos atribuir a ela o seu real valor para a história da arte, não apenas a originalidade do artista, mas também todo o processo histórico e a atuação do tempo sobre ela que a fizeram tornar-se o que ela é hoje. Do contrário seríamos levados a pensar que o seu valor teria sido perdido no momento em que o devir retirou dela características originais.

Na era da tecnologia a atuação do devir sobre o registro artístico perde o seu poder. Uma fotografia digital não está igualmente sujeita ao devir do tempo tal qual a pintura, escultura, arquitetura, etc., e isto é evidente. Neste caso, atribuir o valor artístico a ela dependeria de outros elementos.

Por sua vez, a fotografia valoriza a sensibilidade estética imediata do artista diante do mundo. Na Metafísica do belo Schopenhauer defende que a arte nos aproxima da vontade através do encontro desinteressado do artista com a ideia. No entanto, a vontade se objetiva não apenas da arte, mas no próprio mundo através de uma mirada não verbalizável do gênio. O mesmo pode ser encontrado na Crítica da faculdade do juízo de Kant, que afirma que o objeto belo é aquele que tem a capacidade de agradar universalmente – uma vez que o sentimento do belo é subjetivo, mas as faculdades que estão em jogo quando se apresenta o objeto são as mesmas. O exemplo disso está na própria natureza que exibe o belo através de uma harmonia inexplicável quer deve ser replicada pelo artista – a harmonia da obra deve seguir a harmonia natural do mundo, ou pelo menos pretende ser igual.

Sabemos, porém, que o momento de sensibilidade estética diante do mundo é muito mais fugaz que o processo de produção da obra. Neste sentido, a produção demanda mais que a mera inspiração, mas também um constante trabalho de racionalização da produção e da técnica para que a obra atenda aos requisitos naturais de harmonia do mundo. A fotografia, no entanto, permite o registro quase imediato do aparecimento da Ideia ou da harmonia inexplicável do mundo dependendo muito mais da sensibilidade estética do artista ou ainda do seu empenho das técnicas de registro e apreensão deste “aparecimento’, e do trabalho sob o registro efetuado que abrem espaço não só para uma nova forma de se pensar a arte e a técnica, mas também a própria episteme, ou seja, no geral, o modo como nos relacionamos intuitiva, psicológica e racionalmente com o mundo.

Créditos da imagem : Marcela Lula Fotografia

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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