A perspectiva do morto

(Imagem: “Aula de anatomia” de Rembrandt)

Por Tiziana Cocchieri

Prólogo –  Filosofia … Aquela senhora sem coração, que expõe suas verdades sem muitos afetos ou constrangimentos.
“Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida.”
Millor Fernandes
Muito raro quem se prepare para a morte. Em geral, se vive sem pensar nela, evitando-a. Será que é por isso que não há muita preocupação sobre refletir o que seja mais relevante. Refletir parece estar um pouco fora de moda. Distrair-se tem mais praticantes a que concentrar-se. Já ouvi de modo recorrente as frases:

– “Não esquente a cabeça com isso, depois vai ver que tudo se resolve”.
(Talvez se aplique a algumas poucas circunstâncias, mas a todas?! Como tudo se resolve per si? Se fosse assim, não precisaríamos nem mesmo nos preocupar em sermos racionais, poderíamos escolher ser de outra espécie. Para que serviria aprender a raciocinar melhor, refletir – o que demanda esforço e muito interesse – se as coisas se resolvem).
– “Não se preocupe que o tempo faz esquecer”.
(Raras vezes o tempo faz esquecer, a não ser algo insignificante. O que faz esquecer, no sentido de cura, superação, é refletir sobre o que aconteceu, dar sentido, tentar entender e buscar transformar em propulsão e não cadeia de estagnação. Quanto mais ampla a perspectiva maiores as chances de compreensão. Neste sentido, para poder ver, seria necessário o tempo de distanciamento. Mas, ainda assim, ainda que o tempo fosse necessário, não seria o suficiente para dar conta do processo de amadurecimento. O tempo não é uma entidade, tampouco se ocupa de resolver problemas de alguém).
 – “O melhor é não pensar e se distrair”.
(De onde vêm essa frase feita que muita gente ainda deposita crédito? Já ouviu falar de efeito rebote? Se se tem um problema, o melhor é refletir sobre as soluções enquanto se sabe que esta ali, às vistas, pois distrair em ocasiões desse tipo significa: Procrastinar. Se ainda assim se escolhe não pensar, quando menos se espera a mesma situação vem à tona, como num eterno retorno até que se mude o padrão, e aí, nunca se sabe se quando vier se está preparado).
Muito Auto-ajuda? Que nada … Até pra poder ajudar a si próprio a reflexão é fundamental, se não, não se consegue entender a informação que recebeu. Estar informado não significa saber. Aliás, o nome para o gênero de livros constituídos de frases motivacionais sem profundidade reflexiva deveria ser classificado como categoria “Auto-engano”, bem mais adequado.       
Me parece que os que se fiam nestas frases, e as espalham por aí, não devem ligar para o fato que irão morrer. Talvez estejam tão entorpecidos que a morte não lhe causa receio algum. Sempre é bom lembrar que a morte não se distrai, e morrer distraído deve ser uma aflição. Por outro lado, são muitos os que evitam o assunto, e não por acaso Freud chamou de tabu. Mas, essa é a dialética certeira do mundo da vida. Tão fatídica esta antagonista que, ainda que pra fora de si, não é negada. Ouvi falar que o inconsciente nunca dorme, nem cochila, tampouco pestaneja. Ele não sabe mentir, nem se dá ao trabalho de se distrair. Proponho um experimento:
Sem apelações para ideias macabras, soturnas ou morbidez, mas, se imagine em seu velório. Imaginou? Imagine pessoas que o observam ao seu redor. Também o fez? Pode visualizá-las? Agora descreva como você vê essas pessoas, como estão posicionadas, como por exemplo, andam pelo local, estão paradas, conversam entre si. E você onde fica entre elas? Qual sua perspectiva? Está em frente a elas, observando o que fazem? E quem está morto? … Se fosse possível o morto ter consciência de si, ao abrir os olhos veria na perspectiva de quem está deitado, morto. Muito raro o vivo que se veja assim. Salvo Brás Cubas, que depois de morto ainda contou sua história. Para encerrar, eis a descrição de seu início do fim:
“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco”.

Melhor não dedicar nada aos vermes, pois de qualquer modo já receberam o seu quinhão. 
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