A guerra contra a pluralidade

por Eduardo Viveiros de Sousa¹

Os brasileiros são um problema em qualquer aeroporto do mundo, reclamam muitas autoridades aeroportuárias. Não porque aprontam, mas porque qualquer um pode ser brasileiro. Somos um país de imigrantes de todas as partes do mundo, então a foto no passaporte pode ser de qualquer fenótipo que ninguém estranha. Isso porque somos o país mais plural do mundo, e a pluralidade é a nossa marca registrada.

Infelizmente, a classe dos senhores de engenho estrangeirados que nos submetem, odeiam a pluralidade acima de tudo e tentam por todos os meios substituir a nossa pluralidade pela uniformidade. A mais famosa tentativa foi feita em conjunto pelo governo e iniciativa privada: importar imigrantes europeus, a fim de embranquecer a população e acabar de uma vez por todas com a pluralidade racial brasileira. Não conseguiram, graças à tenacidade e feroz resistência típicas do negro brasileiro. Também porque é uma utopia, todos os humanos são por natureza plurais, não existindo “raça pura”.

A realidade é a pluralidade, basta olhar ao redor e você verá objetos vindos de todos os cantos do mundo no lugar que você está. Aquele que combate a pluralidade é um louco. Mas são os loucos os que sempre estiveram no poder, o que explica todas as tragédias da história humana e a hostilidade à pluralidade. A pluralidade é o que enriquece e dá vida à vida. A uniformidade empobrece e tira o gosto da vida. É chato demais tudo igual. As pessoas dizem que querem ir ao paraíso quando morrerem, mas pago pra ver quem aguentará passar a eternidade a cantar e tocar harpa num jardim com flores. Deve ser um tédio do cão.

Em última análise, o desejo de uniformização é filha do desejo de poder, mas um poder maléfico, aquele poder que esteriliza e mata a vida. Queremos uniformizar para mostrar que mandamos, que controlamos as coisas e as pessoas, que somos diferentes, que somos melhores.

Por isso que estes mesmos senhores de engenho exigem que as babás usem uniforme, para desfilar aos olhos de todos que elas, as babás, são os vermes, e eles os deuses. Esta guerra à pluralidade, nomeadamente às minorias sociais, visando exterminá-las para uniformizar a sociedade, para que todos sejam “iguais”, é uma guerra de antemão perdida. Mas não deixa de ser o elogio da loucura, como o filósofo Erasmo de Roterdão já observava e, numa guerra de loucos, tudo é loucura e todos somos loucos.

¹ Eduardo Viveiros de Sousa é graduado em Filosofia pela instituição de ensino Claretiano; Acadêmico de História pela mesma instituição.

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