A Geopolítica Multipolar na Perspectiva de Aleksandr Dugin

A Geopolítica é o estudo pelo qual se analisa o desenvolvimento político em uma determinada área geográfica, utilizando métodos, conceitos e termos da ciência geográfica e da Ciência Política. A mesma trata de explicar a relação entre os diversos atores globais na política internacional, demonstrando a maneira pela qual os Estados agem em relação com os demais países.

A multipolaridade é um conceito geopolítico, o qual define que a política internacional está demarcada por no mínimo três ideologias políticas, interesses nacionais e maneiras de conduzir instituições nacionais, no caso a Geopolítica Multipolar para existir necessita de no mínimo três ideologias, as quais motivem ações estatais nas diferentes nações.

Partindo deste princípio, o sociólogo russo, estudioso das Relações Internacionais, Aleksandr Dugin, analisa o meio ao qual foi possível formar uma geopolítica multipolar no mundo contemporâneo, o desenvolvimento histórico da mesma e a sua fenomenologia, a maneira qual a mesma galga o seu desenvolvimento, suas limitações e possíveis alcances.

Esta geopolítica anteriormente fora demarcada por uma bipolaridade, caracterizada pela existência de dois blocos geopolíticos, o comunista e o capitalista, estes foram os dois guias de desenvolvimento existentes na maior parte do século XX, ainda existindo os países considerados do Terceiro Mundo, aos quais preservaram as suas respectivas soberanias nacionais e se negaram a serem cooptados pelos demais blocos, formando assim modelos de desenvolvimento adaptados às necessidades regionais.

Ambas as ideologias que influenciaram o globo eram oriundas de ideais da modernidade, a primeira, o liberalismo, fora o referencial teórico dos defensores das liberdades individuais, liberdades econômicas, economia de mercado, livre concorrência, livre iniciativa, expansão dos mercados e universalização das condições econômicas com o fim de criar a livre circulação de bens, capitais e renda entre as diversas nações que compõem o globo, está diretamente relacionado ao pensamento filosófico da modernidade por promover relações sociais homogêneas e universais.

A exemplo disto, o tutor do liberalismo econômico, Adam Smith, em sua obra, “A Riqueza das Nações” demonstra a sua crítica aos reptícios do tradicionalismo nas sociedade ocidental, a exemplo das corporações que possuíam reptícios históricos das guildas, segredos de ofícios, limites à usura por parte da Igreja Católica; a dissociação da economia enquanto exclusivamente supridor de subsistências e a posteriori significada enquanto elemento possível de prover riquezas individuais aos que participam ativamente das relações de troca e os encarregados de exercer funções laborais na divisão social do trabalho.

A partir das liberdades econômicas defendidas por Adam Smith, formaram-se grupos políticos liberais ao redor da Europa que impulsionaram e defenderam a liberdade de mercado, fim das corporações, proibição de sindicatos, desregulamentação econômica e ausência das leis trabalhistas; a partir de críticas a este modelo de organização econômica surgiram as teorias marxistas que propuseram outra economia, esta de cunho comunista.

Karl Marx, enquanto escritor de jornais alemães, percebera em seus escritos e leituras a respeito da economia alemã, que o processo de associação da política e interesses econômicos privados legitimavam desigualdades sociais, a exemplo do caso das lenhas que eram usadas para o uso do aquecimento das pessoas nos meses de inverno e, a posteriori, passaram a ser bens privados, a serem comercializados no mercado, enquanto civis foram submetidos ao frio do inverno alemão.

A dissociação dos interesses públicos para com a economia e a progressiva associação da organização econômica diretamente relacionada a interesses privados provocaram em Marx e Engels o interesse de estudar o desenvolvimento econômico dos países que adotavam o modo de produção capitalista, os dois registraram em suas pesquisas a existência de duas classes econômicas, a burguesia e o proletariado, esta primeira privou os meios de produção ao uso de seus representantes, enquanto restou à classe trabalhadora, o proletariado, a venda da força de trabalho submetida aos interesses dos donos dos capitais.

Para Marx e Engels, os Estados Modernos representavam uma geoeconomia que atendia aos interesses das diversas burguesias que existiam, sendo necessária a cooperação das diversas classes trabalhadoras, cada uma vinculada às suas nações de origem, formando assim um internacionalismo político, este seria representado por uma instituição política denominada de Internacional, responsável de organizar a política de cunho socialista nas diferentes partes do globo a fim de homogeneizar as relações econômicas, possibilitando a existência do socialismo, organização estatal responsável pela transição à sociedade comunal.

Baseado nestas ideias, o Partido Bolchevique, organização política russa que promoveu o advento de uma Revolução Socialista e instaurou a ditadura do proletariado no Estado russo. Esta organização estatal fora, a posteriori, sendo expandida a partir do comando político de Lênin juntamente aos outros membros do partido comunista, outros movimentos revolucionários ao redor da Europa Oriental foram auxiliados pelo vanguardismo do Partido único, que promovera uma gestão centralizada responsável por promover uma organização política nos países aos quais foste existente o socialismo.

Posteriormente, Josef Stalin promoveu a sua tese no Partido Comunista da limitação geográfica ao qual o socialismo iria existir por um determinado período histórico, sendo conquistada a Revolução Socialista, o uso do realismo político e da administração estatal se faria necessária para cumprir objetivos políticos de cunho marxista, dissociando-se da Revolução Permanente oferecida por Trostky, tendo que os países que adeririam ao socialismo exerceriam relações diplomáticas, porém haveria determinadas autonomias institucionais, as quais garantiria a existência da soberania nacional, esta citada em seus escritos denominados de Marxismo e o Problema e Colonial.

Após a morte do Ex-Chefe de Estado da União Soviética, Nikita Khrushchov o substituirá, o mesmo modificara a geopolítica soviética, promovendo uma política externa mais agressiva, o apoio e financiamento de grupos militares de caráter ideológico comunista, a instalação de mísseis em Cuba, o avanço da corrida armamentista, os Estados Unidos, o seu rival, também incentivara conduzir a política externa a esta maneira, juntamente aos países aliados que compunha a OTAN.

Ao passar dos anos, os dois blocos aproximaram-se em suas relações diplomáticas, por vezes, estas relações obtiveram momentâneos rompimentos e puseram em risco a segurança internacional, além da manutenção da existência do planeta, já que um possível conflito permitira o uso de armas químicas e nucleares, além de mísseis potentes e com alto teor de destruição de áreas geográficas aos quais fossem destinados.

Em 1991, o Ex-Chefe de Estado da União Soviética, Mikhail Gorbachev, representante de reformas internas, achou adequado por meio de sua análise a respeito do bloco comunista em terminá-lo, provocando o fim desta União de Repúblicas, modificando as relações internacionais que compunha o globo, de acordo com Aleksandr Dugin, desde esta data até a emergência de atores globais autônomos e capazes de conduzir suas respectivas instituições caracterizou-se a Geopolítica Unipolar, aos quais os Estados Unidos conduziram os assuntos globais.

O capital financeiro encontra após o fim da União Soviética, o contexto adequado a sua dinâmica, este requer a internacionalização do capital, representado por órgãos que promovam a venda de títulos, ações e a especulação financeira, já não mais encontrada as barreiras alfandegárias e territoriais encontradas anteriormente, novamente uniformizando as relações econômicas por meio de políticas econômicas padronizadas pelo Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio.

Juridicamente formatam-se as jurisdições tributárias, administrativas e constitucionais dos demais países, já que a legislação internacional encontra-se acima das instituições nacionais, transferindo a taxa de juros, taxas alfandegárias, quantitativo de moedas emitidas aos órgãos internacionais responsáveis pela organização econômica a nível global.

O sociólogo russo cria uma relação de oposição de duas variáveis políticas, o global e o regional. O primeiro atende a um projeto da modernidade galgado nos ideais do liberalismo econômico e político, a partir do mercado enquanto determinante da condução dos assuntos públicos, a vida pública para o liberalismo está vinculado à dinâmica do mercado, caso existam possíveis empecilhos para a circulação de capital, a legislação poderá os impedir e promover a expansão dos mercados a nível internacional.

O regional desvincula-se da categoria do universalismo, este é dotado de um sentido histórico, cultural e nacional, o modelo de desenvolvimento é geograficamente limitado, não existindo uma interferência externa na condução dos assuntos públicos, as instituições nacionais por meio de um determinado regime e sistema político irão fomentar as conduções da vida pública, assim, os povos que compõem determinada nação têm o direito de moldar as instituições na relação entre sociedade civil e sociedade política, podendo assim manter as identidades culturais e políticas particulares a um país.

O pensamento Kantiano, principal referencial do liberalismo alemão, defende a criação do novo homem, este formatado por ideais da modernidade, substituindo as tradições locais por uma determinada racionalidade científica pela qual dota o humano, substituindo historicamente as antigas organizações sociais por um mundo unívoco em suas relações do cotidiano. A modernização das diferentes nações requer um movimento político que proponha um desenvolvimento histórico progressivo, dissociando-se paulatinamente das particularidades históricas de uma determinada região.

Neste contexto de vitória de uma ideologia modernista sobre a outra, no caso do liberalismo sobre o comunismo, os movimentos vinculados à identidade nacional continuam em derrota. As identidades culturais às quais foram rechaçadas por ambas as ideologias políticas, continuam a ser ignoradas pelo mundo contemporâneo. Contudo, isto não impede a emergência de movimentos sociais, políticos e culturais que defendam uma organização da vida pública a partir das particularidades que compõem um dado território geográfico.

O sociólogo russo afirma que a uniformização das relações sociais prejudica o desenvolvimento regional, pois atribui aos diversos países, necessidades iguais, enquanto cada geografia promove diferentes maneiras de organizar o ambiente em que os seres humanos vivem, formatando economias diferentes, já que os recursos são distintos, a formalização das relações do ser com a terra promove distintos modos de burocracias que limitam os papéis dos indivíduos nos espaços públicos e privados. Estas resoluções são possíveis de serem bem sucedidas quando atendem demandas dos nativos, os responsáveis pela dinâmica local.

O pensador fundamenta o desenvolvimento das organizações dos povos de acordo com o território geográfico. Determinados povos tiveram a possibilidade de realizar navegações marítimas, coincidindo com o período histórico, ao qual formalizaram as suas burocracias para atender demandas de mercados marítimos e o fluxo de trocas comerciais. Outros povos obtiveram uma organização espacial terrestre, aos quais foram caracterizados por sociedades coletivistas, militarizadas e que realizavam os seus transportes por vias terrestres.

A jurisdição de cada nação fora historicamente desenvolvida com o fim de racionalizar as relações que os indivíduos mantinham com o ambiente, a relação entre o sujeito e o objeto possuía fenomenologias distintas a depender do local, por isto necessita-se de burocracias, instituições e normas distintas. A sociedade global desconsidera estes caracteres; a globalização padroniza as instituições de acordo com aqueles que querem promover os fluxos de capitais, mão de obra e renda, aos quais desconhecem as particularidades culturais, geográficas e econômicas de cada país, estando univocamente interessados em seus assuntos privados, desprestigiando a vida pública.

A Geopolítica Multipolar preza pela Soberania Nacional, autonomia administrativa, respeito aos determinados costumes de um povo, tradições locais, religiosidades locais, autonomia econômica, política e militar. O mundo globalizado é a oposição deste modelo, em que a coordenação geopolítica de caráter Hobbesiano é o modelo adequado, em que determinados atores globais coordenam os demais de acordo com a sua vontade.

Em países soberanos, a dependência econômica, diplomática e política tornam-se nulas, não existindo órgãos intervencionistas em que agem em territórios estrangeiros de acordo com a sua lógica local. A exemplo deste embate entre o nacional e o internacional, encontra-se o debate entre os BRICS e a Comunidade Internacional em 2012 a respeito do caso libanês. Os primeiros afirmaram que ações militares e coercitivas em território libanês só poderiam ser feitas a partir do convite de instituições nacionais a órgãos estrangeiros para conduzir ações militares em seu território, já os Estados americanos, alemão e francês afirmaram que assuntos globais se resolvem globalmente.

O domínio da modernização é tratado enquanto exemplo no Irã e na índia em que ambos os países aceitam determinados avanços tecnológicos, componentes da organização econômica ocidental, porém não se desvinculam de modos de organização social particulares aos povos nativos. As jurisdições de ambos conciliam normas técnicas e o olhar que o povo tem a respeito daquilo que é moral e ético, assim a lei baseia-se nos costumes destes nativos, aderindo a outros pressupostos jurídicos, caso estes agradem as populações que compõem estes territórios.

O princípio de intervenção justificada criado pelos Estados Unidos, Alemanha e a França na ONU em 2012, cria o pressuposto de que se um agente global externo a um determinado território considerar que houve uma transgressão de valores ditos enquanto universais, os países poderão intervir nestas instituições do território transgressor por via bélica, rompendo com o direito à soberania nacional.

Aleksandr Dugin afirma que a política transnacional para algumas regiões não servem mais, pois cria antagonismos entre nações que lançam diferentes projetos a serem atendidos globalmente, ignorando as especificidades regionais das necessidades nacionais, a exemplo da União Europeia, em que civis gregos, alemães, britânicos e franceses discutem se é benéfico ou maléfico atenderem a demandas estrangeiras, por vezes negligenciando os seus problemas.
O argumento daqueles que defendem a manutenção da União Europeia é que ela permite o livre fluxo de mão de obra, capital, bens e renda; também favorece a manutenção de uma identidade econômica, política e cultural europeia, o universalismo e o livre mercado são particulares ao liberalismo, as balanças comerciais favoráveis, por vezes, são afetadas pela entrada massiva de capitais externos, criando um alto contingente de concorrência econômica, barateando a mão de obra e negligenciando as demandas locais.

As limitações de autonomia institucional, provocada pela União Europeia, vêm provocando o desejo de alguns Estados de romperem com a perspectiva liberal das Relações Internacionais. As lideranças contrárias a esta perspectiva oferecem o controle das instituições nacionais nos tributos, taxas alfandegárias, emissão de moeda, fronteiras e o controle do fluxo da força de trabalho estrangeira.

O BREXIT na Inglaterra, o Fronte Nacional na França, os movimentos nacionalistas da Itália, Grécia e Alemanha propõem estas medidas, pois os mesmos discordam da criação de um mundo homogêneo, baseado no universalismo cultural e valores universais, desvinculados aos valores culturais de cada pátria, sendo o nacionalismo um caráter compositor da identidade histórica da Europa.

Na região da Europa Oriental, o escritor argumenta de que nesta região caracteriza-se a organização territorial dos grandes espaços, sendo historicamente desenvolvido um movimento expansivo das fronteiras, os traços culturais dos povos Indo-Europeus permitem similaridades da organização social, cultural, econômica e política, caracterizando este ambiente enquanto a Eurásia, território ao qual é possível formar um bloco geopolítico organizado em jurisdições similares, organização econômica, social e política que abrangesse os Estados que compõem este bloco, sendo o Es Sanguíneo, categoria jurídica normalizadora da constituição, já que os costumes dos povos seriam o critério de formação da jurisdição.

Os Estados Unidos são considerados enquanto defensor da uni polaridade, a abrangência de seus interesses militares, econômicos e políticos promoveram uma uniformização do mundo, este país possui o maior acento de cadeiras na Organização Mundial do Comércio, organizando a economia mundial. A União Europeia transformou-se em um órgão que atende a almejos da economia norte-americana e por vezes os interesses estadunidenses para com questões bélicas levam as forças armadas dos países que compõem a OTAN a atenderem as demandas bélicas dos Estados Unidos.

Este mesmo país fomenta o seu imperialismo na perspectiva de dominar o desenvolvimento dos demais territórios, anteriores diplomatas norte-americanos, a exemplo de Henry Kissinger e Thomas Barnett, estratégico Geomilitar dos Estados Unidos, defenderam o projeto hobbesiano para a globalização, nesta teoria, um determinado país é o responsável pela organização política internacional, a fim de criar um controle do desenvolvimento internacional, evitando possíveis anarquias em um sistema uniformizado, porém isto requer a perca das demais soberanias nacionais.

O realismo político, visto pelo sociólogo russo enquanto necessário aos Estados Unidos, o retorno ao isolacionismo presente até a primeira metade do século XIX nos Estados Unidos, poderia garantir o atendimento de interesses nacionais sem a necessidade de intervenções externas, aos quais provocam gastos demasiados com guerra para o Estado Norte Americano e prejudica a garantia das soberanias e autodeterminação dos outros povos.

O vínculo da organização territorial ao conjunto de instituições que compõe o Estado nacional, a soberania, identidade cultural, social, política e econômica de cada região, o respeito entre os povos do mundo, a escolha voluntária entre nacionalismo e ou internacionalismo compõem a geopolítica multipolar, a qual é responsável pela garantia da variedade de projetos de desenvolvimento social, cada um deste adequando ou não a cada região, de acordo com necessidades regionais, cabendo ao povo e as instituições locais definirem qual o projeto de desenvolvimento nacional será escolhido para um determinado país.

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