A estranha relação entre as ciências humanas e o mercado no contexto brasileiro.

Imagem: Pink Floyd; Álbum: The Wall.

Segundo o site Vista College, a graduação em Filosofia encontra-se na décima posição entre as graduações com mais bilionários. No mesmo contexto, o jornal Telegraph coloca a filosofia como a vigésima graduação com a maior quantidade de milionários no Ocidente. Essas informações podem deixar um jovem universitário brasileiro estupefato pois o nosso senso comum dispõe cursos de ciências humanas como Filosofia, Artes e afins como um caminho rumo ao desemprego ou a eterna dependência da renda dos pais. [1]

Qual a grande diferença entre o ambiente das ciências humanas nos EUA e no Brasil? Quais elementos fazem com que jovens saiam das graduações em Filosofia dos EUA para se tornarem empregados de bancos de investimento a medida que os jovens graduados deixam a graduação para automaticamente assumirem salas de aulas no Brasil? Responder essas questões tomaria tempo e espaço que não dispomos aqui, desta forma nossa pretensão imediata é simplesmente apresentar esse debate com a seguinte provocação: Quais fatores dificultam o acesso do jovem graduado em humanas ao mercado de trabalho?

Quando deixei o ensino médio, possuindo forte interesse na atividade de pesquisa, a opção imediata que saltou aos olhos foi o Direito, pois trata-se de uma graduação que oferece uma proximidade tanto com o tipo de conhecimento necessário para compreender parte da estrutura social como, de alguma forma, de autonomia financeira. No entanto, tendo em vista que não tinha interesse em trabalho automatizado (e não possuía a compreensão de que eu poderia construir minhas próprias iniciativas independente da graduação) acabei por diminuir minhas opções para os cursos que tocavam algum núcleo duro da pesquisa social, Filosofia, Ciências Sociais, Psicologia, História… foram minhas opções. Já neste momento era possível observar como a escolha desta área lhe coloca num vórtice de comentários e questionários sobre sua fonte de renda no futuro.

Assim como grande parte dos jovens que acessam o ensino superior por meio destes cursos, minhas expectativas iam desde compreender questões complexas sobre as relações sociais, até me tornar um intelectual famoso. Claro que nenhuma delas sobreviveu até o quarto período da graduação. Neste mesmo período outros colegas, que também acessavam o ensino superior através destes cursos ainda possuíam uma experiência parecida com a minha, no entanto tudo mudou durante o período em que começaram a surgir a preocupação com a monografia e com o futuro após a graduação. Este é o momento onde você se questiona sobre o que seu diploma e seu conhecimento te disponibilizam… e a conclusão que todos indicavam era: sala de aula. O desânimo era terrível, não apenas pela remuneração, mas justamente pelo fato de que ir para uma sala de aula significava a desistência dos sonhos de uma vida intelectual. Essa perspectiva é tão realista no imaginário brasileiro que nosso ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo de formação, já se pronunciou dizendo que professores são pesquisadores fracassados. [1]

Neste contexto de poucas opções, o graduado, refém da necessidade de gerar renda, acaba buscando um espaço como professor, e sonhando com o dia em que vai poder se qualificar para dar aulas em universidades. Este é o momento chave para a nossa questão: O que faz com que o jovem graduado enxergue tão poucas possibilidades?

A nível de especulação poderia dizer que não há cultura empreendedora no zeitgeist brasileiro, no entanto seria rapidamente desmentido pelo fato de que o Brasil é um dos países com maior número de empresas e desponta em quinto lugar no ranking dos países com os empreendedores mais obstinados do mundo. [2]

Acerca deste fato o jornalista Hugo Fernandes-Ferreira aponta para uma possível causa:

Ao passo que o governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas de pós-graduação nestes últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades do mundo, além de uma série de outros absurdos. [3]

No entanto, seu artigo como um todo conta com alguma leviandade ao fazer inferências sobre a baixa exigência dos alunos do CsF, o interessante debate levantado pelo jornalista produziu uma coleção de demonstrações da eficiência dos investimentos no CsF. Assim, pretendemos apresentar uma narrativa diferente. Minha tese é que a ausência de um mercado de trabalho sólido e diversificado para os pesquisadores em ciências humanas e sociais se dá pela imbricação de três fatores: sacralização da vida intelectual, moralismo e distanciamento da vida fora das universidades.

O primeiro dos fatores diz respeito a uma figura ainda comum, felizmente cada vez menos, nas universidades, o Professor ou Pesquisador que relata a vida intelectual como algo sagrado, reservado àqueles que abandonam toda ambição (emprego, renda, posição política…) entre os homens e se dedicam totalmente à reflexão. Claro que essas figuras propagandeiam o abandono das ambições enquanto eles próprios já possuem seus cargos nas universidades ou suas heranças familiares que garantem tudo aquilo que os alunos buscam nos empregos. O aluno que segue esse professor, em algum momento vai se deparar com a situação onde ele próprio vai ter que escolher entre a vida sagrada e o mercado de trabalho, e vai perceber que nem sempre sua excelência na vida sagrada vai lhe dar alguma vantagem no mercado de trabalho. Resultado: frustração, desânimo e desemprego.

O segundo dos fatores trata-se de uma alfinetada para os professores do campo progressista: a produção de conhecimento no Brasil é percebida quase que exclusivamente como uma atividade de cunho moral. Se você trata o seu conhecimento e sua capacidade de articular conceitos como uma mercadoria, você está pecando. Ao meu ver esse é o mais grave dos fatores, pois limita o horizonte de possibilidades do jovem graduado para dispor de suas habilidades, sua compreensão ampla da articulação de conceitos e mesmo da lógica. Todos os intelectuais que vinculam sua produção a determinada empresa, posição política ou instituto acabam se tornando párias na comunidade acadêmica, alguns são desacreditados e outros simplesmente afastados dos grupos, o que gera uma desintegração e consequente enfraquecimento da comunidade acadêmica brasileira.

Embora não se questione o engenheiro que produz para as grandes multinacionais, o intelectual que pretender dispor de sua força de trabalho da mesma forma irá encontrar toda forma de acusações sobre seu caráter e a qualidade de sua pesquisa. Uma das maiores empresas de produção de conhecimento do mundo, a Rand Corporation, emprega entre seus quadros filósofos, cientistas sociais, críticos de literatura… e não se trata de alguma política afirmativa para essas graduações, mas do emprego mercadológico de um dos mais valiosos bens no mundo atual: Conhecimento. Desta forma, sem abandonar o moralismo na produção intelectual do campo progressista, não será possível vencer essa barreira entre o jovem graduado e o mercado de trabalho.

Por fim, o último fator trata-se de um dos menos preocupantes, pois recebe muita atenção e já é alvo de críticas há bastante tempo. No entanto, nas ciências humanas, esse fator possui um caráter especial: pessoas que se dedicam a compreender as relações sociais, políticas e econômicas e que, muitas vezes, passam a vida inteira sem conhecer a experiência da política e as relações de mercado em seu próprio bairro, cidade, ou Estado. Não compreendem as dinâmicas partidárias e correm sempre o risco de soarem ridículos ao serem convidados para versar sobre essa experiência.

Para superar esses três fatores, ou pelo menos alguns deles, é necessário que entre graduados, investidores e governo, pelo menos um destes setores passe a observar a interpretação da sociedade como uma oportunidade de empreender e gerar renda, mas para isso é necessário que os graduados mostrem que seu diploma em Ciências Sociais ou Filosofia os tornam apto para propor, não apenas soluções para a fome no mundo ou para substituição do sistema capitalista, mas também para o desemprego no seu bairro, na sua cidade. Nossa esperança é que essa mudança de atitude ative um processo de reinserção do jovem intelectual na sua comunidade.

[1] http://www.telegraph.co.uk/business/2016/09/21/want-to-be-fabulously-wealthy-heres-the-degree-youll-need/

[2]  http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u7188.shtml

[3] https://www.fastcompany.com/3066997/these-are-the-countries-with-the-most-determined-entrepreneurs

[4] http://www.huffpostbrasil.com/hugo-fernandesferreira/doutores-desemprego_b_9316594.html

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Marcelo Silva

Marcelo Silva, 26 anos, doutorando em Filosofia Prática pela UFRJ, graduando em Direito e mestre em Filosofia Política, Liberalismo e Pragmatismo. Com pesquisa em Teoria da Justiça, Teoria Institucional, Teoria Moral, Análise Econômica do Direito e Liberalismo Político. Leitor e ouvinte de Blues, Jazz e da literatura e música brasileira, de Cartola a MC Zói de Gato, de Villa Lobos à Manezinho Araújo, de Machado de Assis à Ruben Fonseca. Militante progressista e amante de um bom café.

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