A descoberta do medo

Sentado no banco da praça em frente a minha casa, absorvo-me em pensamentos confusos misturados com fantasias e realidade.

Fixo meu olhar nas crianças que correm no vai e vem de suas alegrias, ilusões e fantasias sem perceber o quanto o tempo passa sobre as suas vidas, que em algum momento as levará ao rompimento da realidade eminente.

Compenetrado estou, com a imaginação flutuando entre neurônios, quando deparo-me com grandes e penetrantes olhos azuis tristes e sem brilho.

– Me dá a bola! Fala a criança timidamente, entrego-lhe a bola, e a vejo por inteiro diante de mim. Ela é alguém, tem uma vida, e nada sei a seu respeito, da sua intimidade, do seu dia a dia.

Na verdade não conheço nem a mim mesmo, sou imprevisível, às vezes me surpreendo com isso.

Somos seres adaptáveis ao ambiente dotados de memória pensativa e criativa, interagindo com os movimentos e sons circundantes, muitas vezes influenciados e sugestionados pelo sistema sócio/político vigente onde a existência tem uma finalidade e cada indivíduo deve descobrir os porquês ao longo de sua vida. O filósofo René Descartes escreveu; “Penso logo existo”, isso prova que eu penso e sei quem sou, vivendo de escolhas que muitas vezes vão de encontro ao meu modo de pensar, me adapto para sobreviver, muitas vezes com rebeldia sobre as mentiras escravizadoras de mentes passivas abertas para receber o doutrinamento massivo institucionalizado, levando-nos a crer que a dor o sacrifício a humilhação são consequências naturais e que fazem parte da vida.

Procriamos e nos sentimos felizes entre sonhos e projetos do mundo perfeito, onde os filhos crescem se formando como espelhos de nossas vidas do passado, presente e futuro, até que a sua luz se apaga.

Volto a observar a garotinha que se afasta saltitante envolvida em suas inocentes travessuras, esquecendo momentaneamente seus tormentos e pesadelos vividos no seu dia a dia em seu meio familiar. Qual será o seu drama? Sua realidade em outro contexto? O que sente?

Conecto-me a ela, esquadrinho o mais profundo da sua mente, deparo-me diante de sua vida de fantasias e realidade. Está só, envolta em sonhos reais, fantasias confusas, volta ao princípio de sua existência, onde absorve impactos positivos e negativos no seu caráter e intelecto imaturo que é único, só ela controla e entende. Vejo que, seus grandes olhos azuis se recolhem sob as pálpebras, molhados pelas lágrimas que agora escorrem de suas bochechas pálidas, olhos fixos no vazio sem entender, encolhida no canto mais profundo de seu quarto, assustada. Seus sentimentos imaturos e confusos não assimilam o incompreensível.

Gritos e gemidos de dor a alcançam, fecha os olhos e ouvidos com força, uma aura negativa arrepiante gera calafrios em seu corpinho frágil e indefeso. Tem medo, sua mente constantemente embalada por sonhos e fantasias nas inocentes brincadeiras se depara com algo novo, uma nova sensação.

Sua luz pura e vibrante vaza dos seus sonhos, abrindo espaço para uma nova realidade que renasce. Ela chora, o medo instalou-se em seu coração, seu peito move-se ofegante, busca na escuridão uma luz para se abrigar. Gritos alucinados invadem o ambiente, objetos quebram.

Recolhe-se.

Lembra do seu pai que lhe transmite segurança e proteção, suspira satisfeita e feliz.

Sua mãe lhe acaricia o rosto e lhe transmite um grande sentimento de amor e carinho. Eles são seu porto seguro, não vive sem eles.

Agora um profundo sentimento de abandono percorre seu corpo, percebe que seu castelo está desmoronando.

Abre a porta do quarto lentamente e um filete de luz ilumina seus olhos assustados. Um vulto cambaleante vai em direção a cozinha, a luz se acende, mãos trêmulas e descompassadas tentam encher um copo com água, o rosto ensanguentado e desfigurado de sua mãe lhe causa um grande impacto e estremece, percebe a gravidade de situação, dor, humilhação e desespero misturados com ódio e revolta tomam conta de sua mente, confundindo-a, mas algo muda em seu íntimo.

Fita os olhos do seu pai antes brilhantes e seguros, agora negros e vazios. Que mal se apossou dele? Irreconhecível se afasta em silêncio, cambaleando porta a fora  é engolido pela escuridão da noite. Uma cortina se fecha diante de seus olhos, a ilusão, o tempo da paz, da união e do amor se desfez como névoa, não tem mais certeza da sua existência.

Sua mãe anda de um lado a outro gesticulando com suas indagações e mágoas, lamentando o drama que se abateu sobre sua vida.

Aquela menina que brincava na inocência de suas brincadeiras e fantasias é um reflexo da nossa sociedade, somos ela, em nossas caminhadas mais íntimas e no descobrimento diário do novo.

A garotinha carrega agora o peso da realidade sobre si, na luta contra a força bruta do ódio, da mentira e do egoísmo humano. Agora sozinha, olhar fixo no vazio, olhos azuis sem esperança.

Volto ao parque, crianças correm no vai e vem entre brincadeiras e fantasias na alegria de ser criança. Agora ela corre, se mistura a luz da esperança, das gargalhadas inocentes como criança.

Adormeço em minhas memórias quando deparo-me com grandes olhos azuis….

– Me dá a bola!?

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de Flávio Luís Schnurr

Flávio Luís Schnurr

Descendente de pais russos; artista; escultor; designer e escritor. Procura viver dentro da realidade sem perder seus princípios de vida na mais absoluta verdade. Catarinense radicado em Curitiba há mais de 30 anos.

Pular para a barra de ferramentas