A cápsula do esquecimento

Imagem: Ana Carolina Seffrin [recorte]

Sou um navegante solitário em pé no convés, e ela é o mar. O céu se reveste de uniforme tonalidade cinza e lá, bem adiante, se junta com o mar, que também está cinzento. É muito difícil distinguir o céu do mar. Ou o próprio navegante do mar. As coisas reais das coisas emocionais. (Haruki Murakami)

A primavera se introduz em nossas vidas. Sinto um vento fugidio. Trago comigo, na mochila, um casaco impermeável, dois livros, um Ipod, fone de ouvido e meu Moleskine. Duas canetas. Gosto de escrever. De delinear e rabiscar palavras. Meu violino acompanha, um fiel aliado. Lamentavelmente, sofri a tragédia de duas cordas que arrebentaram no ensaio. Um amigo disse-me que isso é sinal de sorte. Respondi-lhe: caso suas cordas rompessem, você não pensaria em sorte. Rimos.

Caminhei para chegar até o parque. O trajeto não é ruim em essência. Gosto de caminhar e pensar. Pensar sobre como as coisas são ou como as coisas deveriam ser. Percorri vinte quadras. Sei que não estou atrasado porque controlo o tempo, esse relógio é meu estandarte e amigo insubstituível. O importante é estarmos juntos. O dia está lindo. Lindo de verdade.

Nós dois estamos sentados nesse espaço exíguo e reparo o velho banco de madeira corroído pelas adversidades, a inclinação temporal em desgastar. O desgaste. Olho para o céu e posso dizer que meus poderes paranormais informam que a chuva começará, talvez, à noite. Ainda temos tempo para desfrutar. O entardecer. Gostamos das circunstâncias.

E também aprecio abraçá-lo, de pegar sua mão e saber que sempre estaremos juntos. O odor de sua colônia e sorriso dão-me algum tipo de alento ou esperança, uma vontade gigantesca de ousar e enfrentar a vida. Sei como você enfrentou a sua e também sei tudo o que passou para que estivesse sentado aqui, a meu lado, com firmeza e energia. Você tenta e continua tentando. Não desiste. Também sei que sua visão impossibilita a observação de reflexos e luzes e que os óculos escuros de aviador, sempre serão seus eternos companheiros. O tempo é um estrato e todas as ações humanas contêm diferentes estruturas de repetição. Dizem que isso se chama história.

Uma garoa misteriosa, incidental e irrelevante. O sol está lá, a observar cada um de nós.

Lembro da frase que costumava repetir sobre o mistério da vida, sobre o destino ser incontornável. Certa feita você insistiu em dizer que o destino é incontornável e, depois, desapareceu de casa, como se estivesse me abandonando, como se nunca mais fosse deitar-se comigo na cama e me contar histórias incríveis de gatos chineses que viveram aventuras descabidas. Era assim que dormia. Com suas histórias. Você, desgastado pelo serviço, sempre a tentar fazer-me dormir. Todas as noites. Não sei quantas foram, mas seu método era infalível. Sempre foi melhor do que qualquer sonífero. A indústria farmacêutica precisa de pessoas como você.

Agora, nesse momento, estou sentindo o cheiro de terra molhada. Memória. Memórias. Reflexão. Suas mãos estão geladas. Mas você nunca reclama. Suporta as dores como um Viking. Mas suas mãos estão geladas e quero esquentá-las. O sol irá partir. Todos partiremos. E, mesmo sentindo o frio de suas mãos, eu consigo sentir o calor de nosso relacionamento. De nossa amizade. Suas mãos geladas. Você sorri e diz-me para não me afligir com a vida. Com nada. Com ninguém.

Lembro-me de lágrimas quando seus olhos precisavam de felicidade ou qualquer tipo de alegria. Seus olhos: eles ainda resplandecem.

Vejo duas crianças: estão sentadas em um balanço. Um homem corre, tenta controlar a respiração e, bem à nossa frente, folhas de plátano, uma centena delas, forram o chão. Já são quase seis horas da tarde. Esse é nosso horário preferido. Você gostava de ver o pôr do sol. Sempre gostou.

Quando você partir eu prometo que continuarei visitando esse lugar, pontualmente, todos os domingos. Irei ler Steinbeck em sua homenagem. Trarei uma boa garrafa de champagne, cigarros e charutos, sejam eles cubanos ou paraguaios e juro que ficarei bêbado, mas bêbado de verdade e ainda terei coragem de ler em voz alta, como se você estivesse aqui, porque você sempre estará aqui. Você sempre será meu amigo. Um dos poucos que tive.

Falarei a quem passar por mim que Ratos e Homens é a única história de amizade digna de leitura. Aliás, cada vez que olho para você, percebo o quão parecido está com o bom e velho Steinbeck – só que mais bonito, é claro.

Mas, agora, preciso falar de coisas reais. Minha visão ainda não distorceu por completo, tampouco minhas ideias. E o tempo está passando.

Eu não queria que você partisse. Não sou mais criança, mas ainda tenho direito de desejar. Seguro a vontade de chorar com todas as forças que me restam; seguro as lágrimas porque não quero chorar enquanto você está do meu lado e, sobretudo, não quero vê-lo chorar. Mas eu não queria que você partisse. Quando você partir minha vida vai se tornar um subterrâneo de ausência. Eu não quero sentir essa ausência.

O mundo está repleto de vida, de crianças pulando de alegria, de casais se amando, de filhos abraçando os pais, de pais amando os filhos, de carinho, respeito, vontade, desejos, mares e nuvens e pessoas decepcionadas, gente que quer viver, gente predisposta a encontrar prazer, gente que vai cair, são quedas e mais quedas e há tanto para fazer, tantas fotos a serem tiradas, tanta esperança e ondas, cafés e chocolates incríveis, e também existe felicidade e tristeza e almas se abrindo e fechando, arranha-céus e museus e quadros e tantas perguntas e tantas outras coisas e uma infinidade de números, os números infinitos, de gente com vocação para palavras e fronteiras e países e um universo a ser estudado. Veja a injustiça terrena da realidade: a anatomia do desaparecimento é a única certeza e isso é injusto e desleal e as coisas são assim, simplesmente são assim e, no fim, somos reféns.

Os seus olhos irão fechar para sempre. E eu não sei lidar com isso, não sei lidar com essas certezas misteriosas e, cedo ou tarde, você irá partir.

Você partiu.

A vida é uma obscura criatura marinha. Percebo o quanto o amo e espero que um dia meu filho me ame tanto quanto eu te amei. Porque aprendi a viver graças à sua vontade de viver. Testemunho um terrível confronto com a vida porque não sei aceitar esses tropeços, essas peças que ela nos prega, e não sou um idealista. E não sei o quanto devo agradecer, porque nenhum agradecimento bastará. Nunca.

Vou criar uma cápsula do tempo. Quando chegar em casa irei colocar nossas fotos, alguns livros e medalhas, o chapéu que você tanto gosta, encaixotar e enterrar bem aqui atrás dessa árvore. Em alguns anos trarei meus filhos e direi para eles desenterrarem nossas melhores memórias. Talvez eu chore. Talvez eu esteja chorando, mas você já não pode ver. Talvez eu chore porque a cápsula do tempo não irá manter você aqui, vivo, para que conheça seus netos. Mas ela estará aqui. Enterrada. E será reaberta porque a vida é feita das nossas melhores memórias.

Penso na sua partida. Nos meus amigos que tentarão consolar. Penso que as coisas são injustas. E, além de injustas, elas são irreversíveis.

Foi Ella Fitzgerald quem disse que o único jeito de prosseguir é tentar compreender o que se passou. Sem dramas universais. Escutaremos um bom e velho tango algum dia. Algum dia.

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Foto de perfil de Ana Carolina Guimarães Seffrin

Ana Carolina Guimarães Seffrin

Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria/RS (FADISMA); Mestra em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Escritora.

  • Ricardo Morales

    Lindo texto. Cheio de emoção, carinho, saudade e esperança. Uma dose monumentalbde afeto. Além de tudo tem um vocabulário rico e está tudo em seu lugar. Nota dez Parabéns à autora.

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