À Beira da Vida e da Morte

O que é a vida? O que nos faz viver? O que nos motiva? O que somos e quais são as nossas escolhas? O que estamos fazendo com nossas vidas? Como tratamos as vidas alheias? Como funciona os nossos relacionamentos entre pessoas durante a vida? O que define estar vivo? Estamos apenas esperando o momento de nossas mortes?

Mas o que é a morte? O que nos faz morrer? Como morremos? Podemos já estar mortos? O número de partículas em um corpo vivo e em um corpo morto é o mesmo? A morte e a vida são dois extremos de uma reta ou são companheiras de longa data?

O sol bate na janela do meu quarto. Pássaros cantam lá fora, enquanto cachorros ladram para um carro passando no meio da rua. Este, por sua vez, emite um barulho do motor e buzina para uma moto que corta sua frente. A moto passa por uma estrada esburacada e o motorista acena para uma mulher lavando roupas, cujos filhos correm para todos os cantos ao redor dela. E uma borboleta passa voando e planando entre a correria das crianças. Uma linda borboleta branca que pousa em um galho de uma árvore que possui várias formigas trabalhando e levando alimentos para o formigueiro. Ocasionalmente, um pé gigante de um homem corta o solo e o caminho das formigas, deixando para trás apenas a marca de sua bota. E de tão funda, uma minhoca é desenterrada e rapidamente é fisgada por um passarinho que o leva para seus filhotes e na briga pela minhoca entre os pequenos passarinhos, a minhoca cai em um rio e o peixe a come. No rio, há vários animais e plantas dos mais variados tipos. Mas um peixe maior come o peixe menor e enfim há uma minhoca no anzol que atrai o peixe maior e o mesmo é pescado por um pescador com cabelos grisalhos de aproximadamente cinquenta anos que comemora o achado. O sol bate na janela do meu quarto. Há aí vida.

Ou podemos pensar que daqui a 5 bilhões de anos o Sol irá engolir todos os planetas e perecer, formando uma nebulosa planetária. Os cachorros ladrando e os pássaros não irão durar muito tempo; o carro tende a estragar e enferrujar; o motorista da moto morrerá cedo; a mulher não verá seus filhos crescidos e idosos, e os mesmos não verão seus próprios filhos envelhecidos. A borboleta dura muito pouco tempo, as formigas também; o homem da bota deve já estar quase morrendo; a minhoca já teve seu destino na barriga do peixe. E este foi pescado, morto, assado e servido. E o sol morrerá daqui a alguns anos. Há aí morte.

Pessoas nascem. Pessoas morrem. A vida é uma demonstração de vida e morte. Há um embate. Viver é uma batalha contra a morte. Já dizia Darwin, as espécies lutam para existir. Nós não somos diferentes, estamos nessa briga. Todo dia morrem pessoas e todo dia desenvolvemos mais técnicas de sobrevivência, com remédios e aparatos tecnológicos médicos para realizar exames. A expectativa de vida está aumentando. Mas ainda assim, morremos. Nossa luta contra a morte é apenas para prolongar o tempo de uma vida que eventualmente irá morrer. Todos que já existiram morreram, todos morrem e todos irão morrer. Essa é a única verdade certa da vida. Todos morrem. Os que nascem hoje, morrem amanhã. Vivem apenas um flash rápido de suas vidas. Mas constantemente, lutamos para viver.

Se todos morrem e sabemos disso, então para que nascer em primeiro lugar? Essa pergunta é respondida através de nossas vidas. Para não entrar em uma grave crise existencial, nós somos obrigados a pensar em como vivemos, para que vivemos e principalmente nossa meta principal: o nosso propósito. Nascemos, não escolhemos nascer, mas já que estamos aqui, qual o nosso propósito? Já pensaram em como estão vivendo e o que estamos fazendo? Podemos sentar em um banco e esperar a morte. Isso é fácil, talvez esse seja o propósito de alguém, mas será suficiente para justificar uma vida?

Nascemos sem propósito algum, a não ser aquele que os nossos pais nos dão. Quando pequenos, somos curiosos, queremos desbravar o mundo. Pensamos de uma maneira simples, longe da complexidade da vida atual. Nós somos cheios de vida, espirituosos, esperançosos, temos fé. Pois não estamos cientes dos problemas da vida ainda. Quando crianças, vivemos em uma bolha protetora. Longe de tudo que possa causar mal. Porém, não temos resposta alguma e queremo-las. Essa é a realidade das crianças, perguntamos o porquê de tudo. Estamos ansiosos para desbravar esse admirável mundo novo. A vida se manifesta fortemente nessa fase. Somos ativos, corremos, pulamos, falamos, ainda não fomos oprimidos pelo sistema, ainda não sofremos. Somos felizes, mas sem nenhum propósito, sem ser propósitos infantis.

A coisa complica quando crescemos. Precisamos pensar em alguma carreira, pensar no futuro. Também nos questionamos sobre quem somos, o que fazemos. E de fato, o que somos? Quem somos nós? O que estamos fazendo das nossas vidas? Na adolescência e no período do jovem-adulto, não sabemos quase nada. Mas achamos que sabemos. Nós temos uma ideia, um sonho, porém, esse sonho não vai se realizar exatamente do jeito que imaginamos. A vida não é nossos sonhos, há inúmeros contratempos que podem torná-los irrealizáveis, mas mesmo assim sonhamos. Não podemos viver uma vida vazia, uma casca sem conteúdo, vivendo dia após dia, sem saber o que vai acontecer e sem ir a lugar algum. Temos que ter um propósito, buscar algo. Mesmo que por mais utópico que seja, necessitamos disso. Mas ao mesmo tempo, pouco a pouco aquele estágio de grande vida vai se esvaziando e sendo substituída por um sentimento de comodismo, de aceitação. Aceitamos a vida como ela nos foi imposta, não temos vontade mais para nada. É como se estivéssemos mortos por dentro, porém vivos por fora.

Ora, se eu estou aqui, vivo, eu quero coisas, eu tenho vontades e eu vou exercer minhas vontades. Assim que se está vivo! Tendo vontade de ação, de fazer e realmente fazer as coisas. Contudo, na grande maioria das pessoas, a vida se esvazia por completo. Já não temos um sonho ou propósito, fazemos aquilo pois fomos colocados em um estado de inércia para fazer tal coisa. Me formei em tal carreira, pois agora não importa mais. Nos perdemos em nossos sonhos, nos perdemos de nossas ambições e apenas seguimos a onda em direção a morte. Se antes tínhamos uma ideia de quem somos, o que estamos fazendo e o nosso propósito, agora aceitamos. Repetimos a máxima – “É assim, porque sempre foi”. Mas como assim “é assim por que sempre foi”? Não tem como algo ser assim e a justificativa ser porque sempre foi! Isso não existe! É inadmissível que alguém diga uma coisa dessas! Nós perdemos totalmente a vontade de saber as coisas, de conquistar. Pouco a pouco, nos tornamos mais “realistas”. Pensamos no dinheiro no final do mês, pagar contas e vamos construindo um vazio dentro de nós. Como se fosse um grande buraco, muito profundo. Jogamos pequenas coisas nesse buraco, mas tais coisas nunca vão preencher. Podemos jogar cinquenta jogos eletrônicos, ver vinte filmes, sair dezenas de vezes, nada vai preencher tal vazio. Porque agora, já não temos mais vida. Todos estamos mortos por dentro. O propósito acabou e deu-se lugar à vontade imposta, ao vazio, ao propósito de ir a lugar nenhum.

Se chegamos em tal ponto, não vale mais a pena viver. Vale mais a pena nem existir, nem ter nascido. O mundo se tornou chato, a vida é mórbida e todos são defuntos andantes. A grande verdade é que estamos vivos. Vivos. Querendo ou não, nós ainda temos a capacidade de definir nosso propósito, de mirar em um objetivo e alcançar ele, como uma flecha alcança seu alvo. Nós devemos fazer isso, caso contrário nossa vida será um flash, apenas um instante, um período transitório entre vida e morte. A vida é mais do que isso tudo. Ela é algo complexo, cheio de altos e baixos, de alegrias e tristezas, a vida é uma aventura. Uma aventura e como toda boa aventura, uma busca por algo. Podemos alcançar esse algo ou não, o que importa é a busca. E devemos querer as coisas, devemos ter vontade, pois é assim que são construídas nossas aventuras. Uma aventura em que começamos em um ponto e, sem saber o que vai acontecer, as coisas vão se construído.

Nascemos sem propósito, somos oprimidos pelo sistema, nos descobrimos no meio de toda essa confusão e assim vamos crescendo e construindo nossas aventuras. Vamos de um lugar para o outro, conhecemos pessoas novas, carregamos grandes companheiros, temos mentores, e pouco a pouco vamos nos conhecendo e descobrindo coisas novas sobre nós e a vida em geral. Os outros também estão nessa aventura. Longe das intrigas, do ódio e da raiva, da inveja e do ciúme, longe de tudo isso se encontra a verdadeira vida. Vive mais aquele que está longe disso, pois tais sentimentos ruins corrompem o coração das pessoas. Faz mais mal a si do que ao outro que deseja mal. Um coração corrompido, não consegue viver verdadeiramente. Não consegue sentar, relaxar, aproveitar os momentos, se esforçar, ter desejos e ter a vontade de ir atrás de tais desejos. Tal coração corrompido, só sente vontade de odiar, de invejar, de desejar o mal. E a vida vai passando e então chega a hora da morte. Nós devemos viver nossas aventuras longe desses sentimentos. Devemos viver verdadeiras aventuras, pois é isso que a vida é.

E nessa longa aventura da vida, eventualmente chegará a morte. Mas a morte não é o final verdadeiro. A morte é um aviso de que está acabando a aventura para nós. Pois quando morremos, nossa aventura acaba para nós, mas para os que ficam ela continua. As histórias que criamos na vida se proliferam na vida de muitos. Enxergamos a morte como algo ruim, mas se fôssemos todos imortais, a vida não seria tão valiosa assim e, ouso dizer, não seria tão bela. Se as estrelas durassem para sempre, os átomos nelas fundidos, não teriam se espalhados pela galáxia. Se as espécies não tivessem morrido devido a determinada característica, a seleção natural nunca teria dado origem a tantas espécies. A vida e a morte são companheiras de longa data e não dois extremos.

O que seria da vida se não existisse a morte e o que seria da morte se não existisse a vida? Mitos e conceitos religiosos sobre esses dois temas existem aos montes. Qual está certo, eu não saberia lhe dizer. Posso apenas dar a minha opinião sobre o assunto, dizer a maneira que eu gosto de pensar. Fica a seu cargo a maneira que você gosta de pensar. Não devemos temer a morte, devemos abraçá-la. Nossa mortalidade é o que nos torna valiosos e nossa habilidade de sobreviver é o que nos torna excepcionais. Pois nenhuma espécie conseguiu chegar no nosso ponto, onde controlamos a vida, literalmente, com os avanços na genética. Mas, mesmo pensando dessa forma, a morte pode ser algo bem triste. Perder um ente querido é uma das piores dores, pois ela é continua. Dura por anos e anos e é muito difícil de curá-la.

Então viva! Viva como nunca viveu antes. Faça as coisas que quer fazer, tenha vontade e busque coisas. Aproveite essa aventura. Feliz é aquele que no final tem várias histórias para contar. Aquele que conquistou algo, que olha para trás e tem muitas coisas já conquistadas. Busque seu propósito, busque saber as coisas e nunca se acomode. Busque a verdade, tenha vontade, seja ativo na vida, viva a vida e não deixe que a vida te viva. Porque se pararmos para pensar, é isso que nos resta fazer. Chega em um ponto onde nos perguntamos o que estamos fazendo com a vida alheia e o que estamos fazendo com nossas próprias vidas? Onde eu quero chegar? É isso que nos justifica como seres vivos, é esse o propósito do propósito. Se já estamos aqui, vivos, não temos outra opção a não ser viver a vida e eventualmente terminar essa grande aventura.

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Bruno

Estudante de Bacharelado em Física pela Universidade Federal de Pelotas e amante de jogos eletrônicos.

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