A Aposta de Pascal brevemente refutada

“Ou Deus existe ou não existe. Mas qual das alternativas devemos escolher?
A razão não pode determinar nada: existe um infinito caos a nos dividir.
No ponto extremo desta distância infinita, uma moeda está sendo girada
e terminará por cair como cara ou coroa. Em que você aposta?
[…] Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha
tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente
nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada
a perder ao acreditar em Deus.”

Blaise Pascal, Pensamentos (edição póstuma, 1844).

Aposta de Pascal é um argumento de filosofia apologética, totalmente baseado na falácia das consequências adversas. Ela já foi refutada há séculos, mas muita gente a continua utilizando (mesmo que sem nomeá-la). Resolvo pontuar rapidamente, então, os motivos pelos quais a Aposta de Pascal está completamente equivocada. Reitero que nada tenho contra o fato de você acreditar, mas tenho muito contra você querer impôr sua crença.

1) Trata-se de uma falsa dicotomia. A aposta não prevê religiões que não trabalham com paraísos e infernos, ou que trabalham com infernos diferentes. Nada garante que você terá uma perda finita se crer, ou uma perda infinita se não crer.

2) O argumento não dá conta de suprir a todos os deuses. Crer em um Deus não lhe garante que você vá evitar o inferno de todos os outros múltiplos deuses.

3) Crer tem custo. Crer implica aceitar dogmas, pautar suas vivências e direcioná-las. Crer implica em responsabilizar o exterior pelas consequências de suas ações. Crer implica em obrigação. Crer tem, sim, muito custo. Sacrificamos a honestidade à perpetuação de uma mentira.

4) Crer ou não é uma decisão, embora muitas vezes inconsciente. Não existe garantia de que QUERER acreditar vá fazer você acreditar. Não existe um liga-desliga para a crença. Você pode fingir que acredita, mas será que isso seria melhor que ser honesto e simplesmente admitir que não acredita? É uma crença desonesta.

5) Não é um argumento a favor da existência de um deus. É um argumento a favor da crença, baseado em medo. A grande chave do argumento, portanto, não está na razão ou na lógica, mas nas relações de poder.

Por favor, não seja fanático. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não tem o direito de querer impôr isso aos outros. Liberdade religiosa é um direito.

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Lisiane Pohlmann

Uma forma de vida bípede baseada em carbono. Graduada em Filosofia, Administração e Serviço Social, especialista em Violência e Direitos Humanos, é pós-graduanda em Intervenção em Violência Intrafamiliar e trabalha com divulgação científica. Reside no Rio Grande do Sul.

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