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Observados não sei se sentem, mas deixados ausentes nestas quatro paredes aqui estão. Assim se encontram – pessoas falidas sem emotividade familiar. Observados por meus olhos, nada falam, nada manifestam, são peles, ossos que não se movem para êxito nenhum.

Parecem intactos – não há qualquer contato – não há desejo de manifestá-los, poderia nascer de mim, porém nunca ousei em fazer tanta fantasia em um lugar que nunca ousou em sair do monótono desprezo. Às vezes parece que lugares ocupados demais se tornam vazios demais. Esse âmbito se viciou a isso. Essa “drogatividade” vai fuzilando cada um sem passe de volta.

Somos quatro, porém dos quatro somente eu tento entender tanta depreciação de aconchego, de desrespeito, de desamor… Tento não me drogar neste vício de profunda melancolia.

Uma mesa cheia, com lugares vazios, tantas presenças, desocupadas dentro de si mesmas. Aparentemente a surdez se mantinha precária quando eu ousava em gritar, suportar tantas vibrações no movimentar da mesa, talheres, trincar de copos. Sacudia-me desejando vibrações de contato entre si.

Necessitaram parir uma família, cujo feto nunca se desenvolveu, talvez não percebesse que cada um já se manifestava morto, mas a ousadia de deixar prosseguir um laço era primordial. Porém, sempre me perguntei para quem? Não sei. Tento encontrar respostas até hoje, talvez nunca percebessem que existia muito despreparo e que para cuidar de si e de membros familiares seria muita responsabilidade. A estupidez de pensar que criar um laço é “facível” fez o líder desta incompetência projeção um erro de vontade, que não o fez realizável.

Somos quatro, mas somente eu enxergo quatro. Os demais não estão lá para serem notados, não há “encaramento” não existe qualquer contato, só eu tentando saber onde eles se encontram. Cadê? Onde vocês estão? Por que essa distância? Por que estamos aqui e não se conectamos?

Só uma casa edificada com gente vazia. Desprezadas as molduras de carne se moviam para mais longe, cada um seguiu destino, camas, sofás, escritório.

Somente o meu tolo pensamento e eu, tentava degustar do prato que eu mesma fizera, desejando que fosse o mesmo sabor dos pratos à minha frente. Que cada colherada fosse dividida com um sorriso divulgado ao mundo. Isso era sonho…  Não havia cordão que suportasse tanto despregar desse útero familiar, eu era de alguma forma outro feto que tentava não ser abortado, que manifestava a vontade de que todos nascessem. Inclusive, desejava o nascer da minha família.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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