3 filmes que podem te ajudar a compreender a política atual

Vivemos hoje uma crise generalizada em nosso país, que atinge a política, a economia, os trabalhadores, a educação, e diversos outros setores e grupos sociais. Em escala mundial, estamos acompanhando rupturas nos sistemas econômicos e políticos importantes, que geram impacto nas relações institucionais internacionais, refletindo também no nosso dia a dia, como por exemplo: a eleição de Donald Trump nos EUA; o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia); as crescentes tensões no Oriente Médio; o aumento da imigração da Europa devido aos conflitos político-religiosos; os testes com bombas nucleares na Coréia do Norte, entre tantas outras coisas que estão acontecendo e nos deixando sem muito o que esperar em um futuro próximo.

O cinema é arte. E como arte, ele também cumpre seu papel questionador e político. Os filmes possuem a capacidade de encantar e provocar o espectador. Mas também, podem apresentar outras perspectivas de contextos políticos e sociais que nos ajudam a compreender melhor o momento que vivemos. Nesse conturbado momento, alguns filmes podem nos ajudar a captar as nuances em movimento, os jogos políticos que estão se alinhando e propor questionamentos pertinentes sobre nossas atitudes frente ao mundo.

Selecionei 3 filmes que podem ajudar a compreender os jogos políticos e apresentar diferentes visões sobre a política.

1984 (1984, Alemanha, 1984) ★★★★★

O filme é inspirado no romance George Orwell, que tem o mesmo título. A história se desenvolve em uma sociedade totalitária, onde a repressão, o controle e a violência imperam. O personagem principal trabalha para o governo, chefiado pelo Grande Irmão (Big Brother), que tudo sabe e tudo vê. As normas são rígidas, os relacionamentos devem ser autorizados pelo governo e para fins justificados, como a reprodução, por exemplo. Os sentimentos são suprimidos, pois representam a fraqueza humana, o contato humano não é estimulado, e muitas vezes repreendido.

Destaco o conceito de pós-verdade, onde o entendimento sobre o passado é que ele é mutável e a verdade é criada. Sabe aquela frase “uma mentira contada muitas vezes torna-se uma verdade”? Então… esse é o clima de 1984. Ele retrata toda a opressão sobre os indivíduos tornando-os maleáveis e moldáveis, tal como, anos depois, Foucault trabalha o conceito de “corpos dóceis”(1).

Além disso, o filme escancara as ambiguidades do totalitarismo, onde o controle social é tão massivo, que as crianças, por exemplo, são treinadas desde pequenas para servir ao Grande Irmão, denunciando atitudes suspeitas, inclusive de seus pais. Esta ambivalência também pode ser observado na nomenclatura dos Ministérios e nos discursos que justificam a manutenção dessa sociedade. Vale a pena assistir e depois debater com os amigos!

Assista ao trailer de 1984: https://www.youtube.com/watch?v=Z4rBDUJTnNU&t=38s

Tempos Modernos (Modern Times, EUA, 1936) ★★★★★

Esta comédia clássica de Chaplin apresenta a história de um operário no início da industrialização que vive os entraves da modernização. O filme retrata a crescente urbanização, o aumento da população e as consequências disso: pobreza e desemprego. A massa trabalhadora sofre com a exploração das fábricas devido a constante busca pelo lucro dos donos dos meios de produção. A tese de Marx sobre a alienação do trabalho é representada nesta obra prima cinematográfica com leveza e humor, próprios do estilo de Chaplin. As diversas situações que vive Carlitos (personagem principal) apresentam o caos de uma sociedade em plena expansão industrial, próprias do início do capitalismo. A busca por direitos trabalhistas e as greves dos trabalhadores eram reprimidas com violência e agressividade pela polícia. Um contexto complexo, tenso, cheio de nuances e entraves, uma mudança no estilo de vida e nas relações de trabalho conduzem o espectador a reflexão com a devida sutileza de Charles Chaplin.

Assista ao trailer de Tempos Modernos: https://www.youtube.com/watch?v=4OmEi_AIjZc

O ódio (La Haine, França, 1995) ★★★★

Três jovens vivem no subúrbio francês e enfrentam a dura realidade que os cercam: tráfico de drogas, prostituição, discriminação, abusos policiais, etc. Os personagens, um negro, um judeu e um árabe, vivem a violência cotidiana, acentuada pela marginalização em que se encontram, ao deambularem por Paris, revelando a degradação e a hostilidade constante.

A história é filmada em preto e branco, simbolizando o jogo entre bem e mal que está dentro de cada indivíduo, criando um clima de tensão constante e iminente conflito. O subúrbio está marginalizado, há rebeliões e uma onda de vandalismo. O destino dos personagens parece ser inevitável, já determinado pela condição social em que se encontram. O desenrolar da trama nos faz questionar o quanto o ódio crescente leva à violência.

O filme gerou polêmicas, principalmente devido às cenas de violência, que expõe o cerne dos problemas imigratórios franceses.

Assista ao trailer de “O ódio”: https://www.youtube.com/watch?v=4lwQDTEaX-0

Esses filmes podem nos ajudar a compreender melhor o momento político que nos encontramos, tanto no Brasil quanto no mundo. Sempre tento ter uma visão global dos acontecimentos, pois acredito que os atos de nossos governantes estão todos entrelaçados. Meu esforço consiste em compreender a ligação de cada evento, numa tentativa de encontrar uma lógica entre eles, mesmo que as coisas pareçam não ter uma conexão.

O filme 1984 nos transporta a uma realidade totalitária, onde a solução para a pobreza é tornar todos os indivíduos pobres. Atualmente, diante das reformas trabalhistas que se apresentam no cenário nacional, a lei da terceirização, o sucateamento da educação e a reforma da previdência, não seria essa também a solução encontrada por nossos políticos para a crise econômica que vivemos? A mecanização do trabalho, tanto em Tempos Modernos quanto em 1984 aparece como um dos pontos marcantes sobre a alienação do trabalho e o que isso gera de estresse e problemas na vida dos indivíduos, desembocando na violência explícita de O ódio. O desemprego, a violência, a exclusão estão presentes nas 3 obras. A vontade do Estado em intervir cada vez mais na vida dos indivíduos, a repressão aqueles que estão marginalizados, o conservadorismo exacerbado, a ambivalência nos discursos, etc, são elementos que perpassam os filmes e que podemos identificar com o momento político e social que vivemos: um momento de embate, de luta, de enfrentamento.

É bem possível que esses filmes gerem mais perguntas do que apresentem respostas. Mas é a partir das perguntas que se constrói o pensamento filosófico e crítico, tão importante hoje, em tempos de desinformação. Discutir política é fundamental, pois dela não temos como fugir ou nos esconder, pois o Grande Irmão é implacável e atinge a todos nós.

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(1) Já escrevi sobre a docilidade dos corpos, mas numa visão feminista. Você pode encontrá-lo no link a seguir: https://medium.com/@bruleiite/n%C3%B3s-e-nossos-corpos-d%C3%B3ceis-62a2a7c716e4

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Bruna Leite

Formada em cinema, eterna estudante de filosofia. Pós-graduanda em Gênero e Sexualidade. Escreve sobre filosofia, política, feminismo e artes.

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